Na Antessala do Caos: Nota da Rede CoVida Sobre a Situação da Pandemia no Brasil

 Completa-se um ano que o primeiro caso de COVID-19 foi detectado no território nacional. Neste período, já foram registrados 10 milhões de casos e 250 mil óbitos. O avanço da pandemia a fez aproximar-se cada vez mais da vivência cotidiana de cada um de nós. É raro, hoje, encontrar uma pessoa que não tenha perdido amigos ou parentes. Uma multidão de profissionais de saúde, artistas, intelectuais, professores, celebridades, que muitas vezes admirávamos ou amávamos, ou, sobretudo, trabalhadores e pessoas do povo, queridas por seus próximos e importantes em suas comunidades, que tiveram suas vidas ceifadas. É preciso ainda reconhecer que a pandemia tem atingido mais duramente as parcelas da população em situação de vulnerabilidade social como os negros, quilombolas, indígenas, e moradores de periferia.

No final de 2020, dois acontecimentos demarcaram uma nova etapa da pandemia: o anúncio de vacinas eficazes e o surgimento de variantes do vírus SARS-CoV-2.

No Brasil, em janeiro de 2021, a Anvisa aprovou o uso das duas primeiras vacinas. Contudo, a incapacidade do Governo Federal de assegurar a compra de vacinas e estabelecer um plano concreto de vacinação da população brasileira resultou em um processo moroso de aplicação da primeira dose em um contingente ainda muito restrito de pessoas.

Este insucesso causa preocupação pela possibilidade de que a acelerada expansão da pandemia propicie a seleção e a multiplicação de novas variantes do coronavírus. A apreensão se justifica diante do que está ocorrendo em várias partes do mundo, onde se identificam formas virais ainda mais transmissíveis e, possivelmente mais patogênicas, e que podem reduzir a efetividade das vacinas existentes.

No nosso país, assistimos ao surgimento de novas ondas da pandemia, que mostraram sua face mais feroz em janeiro último na cidade de Manaus. A trágica situação dos manauaras, a qual assistimos consternados, foi agravada pela incapacidade do sistema de saúde local de dar conta da quantidade de casos e de assegurar os produtos básicos para a assistência, faltando inclusive oxigênio. Agora vemos estarrecidos que os acontecimentos de Manaus se reproduzem rapidamente em várias cidades brasileiras, que já se encontram na antessala do caos pelo aumento acelerado da ocorrência de casos graves que evoluem para o óbito por falta de assistência adequada.

A Rede CoVida, que vem acompanhando atentamente a situação da pandemia no Brasil e no mundo, entende que a gravidade da situação não encontrará soluções em fórmulas mágicas e sem comprovações científicas, como alguns apregoam. Partilhamos da firme convicção de que os resultados mais efetivos na mitigação de efeitos nefastos da pandemia têm sido obtidos nas sociedades, cujos governos embasam suas decisões políticas com os conhecimentos de seus cientistas e pesquisadores e o respeito às capacidades técnicas existentes. Mais ainda essas decisões procuram privilegiar a vida. Mesmo que em detrimento de interesses econômicos imediatistas.

Diante do quadro sanitário e político, imprevisível e assustador, e com o objetivo maior de proteger a vida de todos nós, acreditamos que são necessárias e urgentes, em diversas cidades do país, medidas mais firmes para reduzir a transmissão da COVID-19, com efetivas restrições à circulação e às aglomerações de pessoas. Ao mesmo tempo, conclamamos brasileiros e brasileiras a propugnarem por: a) políticas que fortaleçam o nosso Sistema Único de Saúde; b) um plano nacional de aquisição, produção e disponibilização de vacinas para toda a população, em curto espaço de tempo; c) medidas de proteção social e das atividades econômicas, que, entre outros benefícios, criam as condições para que, quando necessárias, seja possível tornar efetivas as medidas de distanciamento social.