Covid grave é mais comum em pacientes com obesidade

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Rede CoVida mostrou que pacientes obesos têm maior risco de desenvolver casos graves de covid-19 que pacientes com diabetes ou doença cardiovascular. A prevalência de ventilação, entrada na UTI e morte foi menor em pacientes com diabetes e/ou doença cardiovascular que em pacientes com obesidade combinada ou não a essas condições. Os pesquisadores avaliaram adultos e idosos, e encontraram uma relação entre obesidade e maior risco de óbito para ambos. O estudo é o primeiro a relacionar obesidade e Covid no Brasil. 

“Estudos de vários países, como China, Itália, França, México e Estados Unidos, já vinham mostrando a obesidade como um forte fator de risco para desfechos graves associados a covid-19, como elevado risco de hospitalização e óbito. No entanto, as evidências ainda não eram claras sobre o efeito combinado que a obesidade com outras doenças cardiometabólicas, como a diabetes e as doenças cardiovasculares, desempenham na gravidade da covid-19, especialmente, em diferentes grupos etários”, explica Natanael de Jesus Silva, um dos autores do trabalho e pesquisador da Rede CoVida. 

O trabalho mostra que adultos e idosos obesos, com ou sem diabetes e doença cardiovascular,  têm maior risco de desenvolver casos graves de covid-19. Na ausência de diabetes e doença cardiovascular, a associação da obesidade com desfechos graves da covid-19 foi mais forte entre idosos que entre os adultos. Na presença de uma ou ambas as doenças, a associação da obesidade com a gravidade da covid-19 foi mais forte entre adultos do que entre os idosos.

Nos adultos, a obesidade sozinha foi associada a uma prevalência 2,69 vezes maior de ventilação mecânica invasiva, de 1,31 vezes mais admissão na UTI e 1,33 mais óbitos que adultos não obesos. Os números foram ainda maiores no caso de adultos obesos com diabetes e/ou doença cardiovascular. A prevalência de ventilação mecânica invasiva nesse grupo foi 3,76 vezes maior, a admissão em UTI foi 1,6 vezes maior e 1,79 vezes maior para morte. 

Entre os idosos, a obesidade sozinha foi associada a uma maior prevalência de admissão na UTI (1,40 vezes mais prevalente nesse grupo) e morte (1,67 vezes mais). O grupo de idosos com obesidade isolada ou combinada teve maior prevalência para entrada na UTI, necessidade de ventilação e morte que o grupo com diabetes e/ou doença cardiovascular. 

Relação

A prevalência de obesidade foi de 9,7% em adultos e 3,5% em idosos. O trabalho avaliou registros de mais de 8.848 adultos e 12.945 idosos no Sistema de Informação de Vigilância de Gripe (Sivep-Gripe), onde são inseridos dados de casos e óbitos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e Covid-19. Os dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde foram captados pela Plataforma de Dados Integrados Sobre Covid-19 (PDI-COVID-19) da Rede CoVida.  

A necessidade de ventilação não variou com o grau de obesidade, mas a prevalência de óbitos aumentou com o grau de obesidade nos pacientes adultos. Entretanto, mesmo os pacientes com obesidade grau I e obesidade grau II tiveram risco elevado de morte por covid-19. Os graus de obesidade foram analisados de acordo com a classificação estabelecida pela OMS: não-obeso (<30kg/m2), obesidade grau I (≥30–34.9kg/m2), obesidade grau II (≥35– 39.9kg/m2) e obesidade grau III (≥40kg/m2). 

“Com estas evidências, é esperado que todas as pessoas com obesidade, independentemente do grau de severidade, idade, e existência de outras comorbidades, sejam incluídas no grupo prioritário para vacina contra o SARS-CoV-2”, ressalta Natanael. Atualmente, o Plano Nacional de Imunizações prevê como grupo prioritário somente pessoas com obesidade grau III ou mórbida. 

Dentre os fatores que podem explicar a relação entre obesidade e agravamento das condições de pacientes com Covid, os pesquisadores sugerem que o maior peso pode causar descompensação glicêmica e pode reduzir a elasticidade do tórax, condições que dificultam a respiração; a obesidade também é associada à apneia do sono e doença pulmonar obstrutiva, que impedem o bom funcionamento dos mecanismos de ventilação; além do comprometimento da resposta imune, que torna o indivíduo mais vulnerável a infecções e menos responsivo a medicamentos antivirais. 

Referência: Silva NdJ, Ribeiro-Silva RdC, Ferreira AJF, et al. Combined association of obesity and other cardiometabolic diseases with severe COVID-19 outcomes: a nationwide cross-sectional study of 21 773 Brazilian adult and elderly inpatients. BMJ Open 2021;11:e050739. doi: 10.1136/bmjopen-2021-050739

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