500 mil de nós

Aos que nos leem agora, cremos que essa dor se não lhe toca diretamente, já é bastante concreta na vida de um amigo, uma colega de trabalho, uma vizinha. Em todo canto, há alguém saudoso que nunca mais reencontrará seu afeto. São 500 mil histórias que esbarraram em um vírus e em um país sem política unificada de saúde pautada na proteção à vida. Todos nós pesquisadores, jornalistas e voluntários da Rede CoVida – Ciência, Informação e Solidariedade sentimos muito por todos nós.

Por todas essas vidas perdidas, por todos os reencontros que não acontecerão, escrevemos reivindicando urgentemente uma coordenação nacional, estratégica, que nos permita visualizar um caminho de superação dessa situação em que nós brasileiros e brasileiras nos encontramos, uma coordenação estratégica, que esteja do lado da saúde, da ciência, da vida e da solidariedade.

Precisamos urgentemente de ações pautadas pela perspectiva da prevenção e do controle da doença, da proteção à vida, com políticas sociais robustas, que não sejam apenas o resultado do bom empenho de líderes locais, mas que seja nacional, pois a vida de todo brasileiro importa. O ritmo em que estamos sendo vacinados é inaceitavelmente lento, considerando que o Brasil, por décadas, foi referência mundial de vacinação eficiente, com altas taxas de cobertura populacional.

Enquanto isso, pela TV e mídias sociais, assistimos a países como EUA, Israel, China, comemorarem o retorno ao convívio social, o que oferece a esperança de uma vida mais potente, uma economia em recuperação e nós não temos ideia de quando poderemos reencontrar essa sensação.

É preciso reconhecer a desigualdade dessas mortes: mulheres e homens negros e pobres, que precisam utilizar os transportes públicos, os quais poderiam ser também chamados de aglomerações institucionalizadas e negligenciadas, que ocupam funções que não lhe permitem o home office, são as maiores vítimas. Não lhes resta alternativa quando não há políticas sociais que ofereçam segurança e comida no prato para escolher a proteção em vez do risco. Não resta escolha.

As iniquidades em saúde se perpetuam. Em nosso país, optou-se politicamente por um auxílio emergencial que não oferece o mínimo de dignidade. Não escolheram a vida, escolheram o negacionismo e postergaram nosso direito de viver com o mínimo de segurança sanitária. Mais uma vez: sentimos muito por todos nós.

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