“Eficácia é um número cabalístico”: a proteção das vacinas contra Covid-19

Raquel Saraiva*

Mais de 175 milhões de doses de sete vacinas contra a Covid-19 foram administradas no mundo até o último dia 15, segundo a OMS. Os avanços nas pesquisas sobre a imunização foram abordados no webinário “Proteção individual e coletiva com as vacinas anti-Covid-19”, o terceiro e último do 2º Ciclo sobre as vacinas, promovido pela Rede CoVida. 

As evidências vêm mostrando que as vacinas contra a Covid protegem as pessoas contra doença severa, com pouca evidência de que haja bloqueio da infecção, segundo Cristina Bonorino (FCMPA). “Imunidade esterilizante protege contra infecção, mas a maioria das vacinas não faz isso. É muito difícil conseguir esse padrão”, acrescentou.

Existem três tipos de proteção que podem ser fornecidos pelas vacinas: (1) bloquear a infecção, (2) modificar a morbidade e (3) bloquear a transmissão do patógeno. Uma vacina que modifique a morbidade, ou seja, que torne os sinais clínicos inexistentes ou menos graves, é interessante do ponto de vista do indivíduo, mas não coletivamente, como mostram alguns modelos matemáticos apresentados pelo pesquisador Claudio Struchiner (PROCC-Fiocruz). “Vacinas que possuem efeito principalmente na morbidade permitiram trajetórias evolutivas onde a virulência do vírus poderia ser direcionada no sentido de um aumento dessa virulência”. As vacinas que bloqueiam a infecção ou a transmissão teriam como efeito indireto a imunidade de grupo, ou imunidade de rebanho. Por isso são mais interessantes do ponto de vista populacional, explicou Struchiner. 

Um grande desafio dos pesquisadores é desenvolver um método que avalie se a vacina de fato funciona no indivíduo vacinado. “Há várias possibilidades de medir a ação da vacina, porque a resposta é complexa e vários elementos envolvidos nessas respostas podem ser medidos”, acrescentou Bonorino. “Estamos em um terreno complexo e que nós desconhecemos muito”, resumiu Manoel Barral Netto (Fiocruz e Rede CoVida). 

Os pesquisadores também discutiram se uma vacina com maior eficácia é melhor. Struchiner explicou que nem há como comparar as eficácias entre si, devido a todas as informações que o número inclui. “A eficácia vacinal é um número cabalístico que engloba uma série de definições”, ressaltou. Como comparação, ele falou que falar em eficácia de vacina é “como expressar o efeito de proteção de um cinto de segurança”: o número está associado às condições dos acidentes nos quais a proteção foi verificada. “A melhor vacina é a que induz a melhor resposta. E qual a melhor resposta? Ainda não se sabe”, resumiu Bonorino.

Assista aqui ao webinário completo:

 

*Raquel Saraiva – graduanda em Comunicação Social (UFBA), bióloga e mestra em Fisiologia (UFBA). Colabora voluntariamente para a Rede CoVida.

Deixe uma resposta