Uma é pouco, duas é bom? Cientistas testam mistura de vacinas contra o coronavírus

Raquel Saraiva*

O desenvolvimento das vacinas contra o novo coronavírus se deu em tempo recorde, mas a pandemia ainda não acabou. Para vencer antigos e novos problemas, como o surgimento de casos graves e a proteção contra novas variantes, cientistas ainda buscam soluções. “Tivemos a primeira geração de vacinas, agora é hora de aperfeiçoar”, afirmou Cristina Cardoso (USP-RP) no webinário “Aspectos críticos na vacinação para garantir a proteção contra Covid-19”, promovido pela Rede CoVida no último dia 11. Dentre as alternativas, está a mistura de duas vacinas para obter melhor resposta contra a Covid-19. Testes que combinam uma dose da Sputnik V e o reforço da AstraZeneca e uma dose da AstraZeneca com a vacina da Pfizer foram anunciados no dia 19 de janeiro e 15 de fevereiro, respectivamente. “Estamos vendo uma revolução no campo do desenvolvimento e produção de vacinas”, disse Marcos Krieger (VPPIS-Fiocruz).

Para uma resposta imunológica ser efetiva e robusta, a imunização deve ocorrer inicialmente com a primeira dose, chamada prime, seguida do reforço, ou boost, que aumenta a capacidade do sistema imunológico de reconhecer o vírus em uma eventual infecção. Ou seja, as vacinas não serão administradas simultaneamente. Cardoso explicou que, na maioria das vezes, é utilizada a “vacinação homóloga”, na qual a mesma vacina, ou vacinas semelhantes, são administradas nas duas fases. A “vacinação heteróloga”, que é agora proposta, consiste na utilização de um imunizante na primeira etapa e outro no reforço. 

Essa estratégia pode dar uma maior flexibilidade aos programas de vacinação, superar a limitação de matéria-prima, melhorar a logística de armazenamento e acessibilidade às vacinas e aumentar a proteção e a sua duração, segundo Cardoso. Estudos preliminares realizados com macacos e camundongos apontam que o uso de duas vacinas gera uma resposta imunológica “altamente eficiente” para evitar o estabelecimento da Covid-19. Mas a pesquisadora ressalta: “Hoje ainda não temos dados clínicos suficientes para falar se isso vai dar certo ou não”. 

A experiência de misturar vacinas não é inédita. A Comissão Europeia aprovou em 2020 um regime de vacinas contra o ebola cuja primeira dose é uma vacina desenvolvida pela Johnson&Johnson e a segunda dose, administrada com oito semanas de intervalo, é feita pela Bavarian Nordic. A combinação da dose oral, com o vírus ativo, com uma dose que contém o vírus inativo foi recomendada em 2019 para aumentar a segurança da imunização contra a poliomielite e otimizar a vacinação. Em 2015, foi aprovada nos EUA a combinação de duas vacinas pneumocócicas conjugadas para aumentar a proteção dos imunizados. Mas nem todas as experiências são exitosas: pesquisadores tentam há mais de 20 anos combinar as estratégias de vacina para desenvolver uma resposta imunológica mais forte contra o HIV, sem sucesso.

Corrida

Outro fator que requer solução rápida são três novas linhagens do vírus: a B.1.5.3.1, que foi detectada na África do Sul, a P.1, do Brasil, e a B.1.1.7, do Reino Unido. “Essas variantes infectam mais facilmente as células”, explicou Thiago Graf (IGM-Fiocruz). Elas possuem a chamada N501Y, uma mutação na proteína spike que facilita a ligação entre o vírus e o receptor ACE2, sua porta de entrada nas células humanas. “Estima-se que a variante do Reino Unido possa ser até 50% mais transmissível que as outras”, ressaltou Graf. Atualmente, cerca de mil linhagens do vírus estão em circulação, segundo o Sistema Pangolin. 

Além disso, as variantes da África do Sul e do Brasil têm a mutação E484K, que está relacionada ao maior sucesso do vírus de escapar da neutralização. Estudos mostram que elas têm probabilidade de infectar tanto pessoas que ainda se recuperam da Covid quanto pessoas que já foram vacinadas. De acordo com Graf, alguns dados apontam uma redução de eficácia das vacinas da Johnson, da Novavax e da AstraZeneca em casos causados por essas variantes. Isso levou a África do Sul a suspender, no último dia 7, o início da vacinação com a Astrazeneca, que iniciaria ainda em fevereiro. Krieger lembrou que a pandemia foi declarada há menos de um ano, e que há seis meses as vacinas que estão sendo aplicadas ainda estavam em desenvolvimento. “A doença é nova, os dados ainda estão sendo construídos. Precisamos avaliar o que será necessário, não apenas em relação às variantes, mas também em relação à própria defesa promovida pela vacina e pela infecção natural”.

Assista aqui ao webinário completo:

 

*Raquel Saraiva – graduanda em Comunicação Social (UFBA), bióloga e mestra em Fisiologia (UFBA), editora do site de divulgação científica Bate-papo Com Netuno. Colabora voluntariamente para a Rede CoVida.

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