Desafios da promoção da saúde, aumento do sedentarismo e redução da atividade física durante a pandemia

Daniela Soares*

A “Atividade física e comportamento sedentário na pandemia da covid-19” foi o tema do webinário realizado pela Rede CoVida e Cidacs/Fiocruz, no início do mês de dezembro de 2020. O evento reuniu quatro especialistas em promoção da saúde, que apresentaram pesquisas e debateram o grave aumento do sedentarismo durante a pandemia, em todas as faixa-etárias da população brasileira. As pesquisas evidenciaram o “tempo de tela” (televisão, tablets, computadores) como o grande vilão da diminuição da atividade física entre os brasileiros.

Déborah Malta, médica, pós-doutora em Saúde Coletiva e pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), iniciou sua apresentação falando sobre o compromisso global da promoção em saúde em relação aos portadores de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), causa responsável por 75% dos óbitos no Brasil. Segundo Malta, as DCNT atingem principalmente a população de baixa renda e escolaridade, considerando ainda os fatores de risco modificáveis como sedentarismo, alimentação inadequada, álcool e tabaco. “A atividade física é algo essencial para que possamos fazer o enfrentamento das DCNT e sua mortalidade, principalmente devido aos desafios terem se ampliado imensamente na pandemia”, alerta Déborah, que também compõe o comitê científico do Global Burden of Disease (GBD) com sede em Seattle (Estados Unidos) e coordena o grupo de pesquisas do GBD Brasil.

De acordo com Malta, “a atividade física durante a pandemia despencou de 30% para 12% para ambos os sexos”, tendo sido considerado na pesquisa 150 minutos ou mais por semana de atividade física regular, que é o recomendável para um adulto. Enquanto a qualidade do sono caiu, o consumo de álcool, tabaco e alimentos ultra processados aumentaram consideravelmente, tendo o tabagismo aumentado em mais de 34%, “um retrocesso que não víamos há muito tempo”, comenta a pesquisadora. Também foi verificado que o aumento do consumo de álcool e comportamentos sedentários estão associados ao aumento dos níveis de solidão, ansiedade, sentimento de tristeza e/ou depressão relatados.

Um dos fatores bastante preocupantes debatido no webinário foi o tempo gasto em frente às telas. Seja televisão, tablet ou computador, o uso em número de horas por dia quase dobrou durante a pandemia, e “em todos os níveis de escolaridade, sexo e em todas as faixa-etárias, principalmente entre os jovens adultos de 18 a 29 anos e adolescentes”, destaca Déborah.

As pesquisas ConVid apresentadas por Malta foram realizadas entre 24 de abril a 24 de maio de 2020, com adultos e, de 27 de junho a 17 de setembro de 2020, com adolescentes entre 12 e 17 anos. Foram entrevistados mais de 50 mil brasileiros, entre adultos e adolescentes. Ambas pesquisas realizadas em parceria com a Fiocruz, a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), entre outras universidades.

Para o palestrante Mathias Loch, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), mestre em Educação Física, doutor em Saúde Coletiva e membro da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), a função da Educação Física não deve se resumir apenas à atividade corporal em sí, mas deve também ser uma promotora da saúde de forma geral.
Mathias apresentou os diversos avanços da ação do profissional de educação física como um agente da Atenção Primária em Saúde, desde a integralidade do SUS (Sistema Único de Saúde) em 1998, até 2017, quando começou ocorrer um desmonte desse sistema. Segundo o pesquisador, “não podemos esquecer que a pandemia acontece num cenário de ameaças ao SUS”, o professor explicou que esse contexto pode dificultar muito o enfrentamento à pandemia.

Em sua perspectiva pós-pandemia, Loch espera que a Ciência seja mais valorizada, a Atenção à Saúde Primária seja mais fortalecida e que haja uma visão de saúde mais ampliada. “É preciso entender a atividade física como um fator de proteção. Uma pessoa ativa tem uma menor probabilidade de complicação diante uma doença”, diz o especialista.
O professor Eduardo Caldas, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), mestre e doutor em Ciências da Saúde, falou sobre as mudanças no movimento do comportamento dos idosos e possibilidades de intervenção. Segundo Eduardo, o comportamento sedentário e a inatividade física são coisas distintas e com muitas variáveis. Caldas explica que “um indivíduo com comportamento sedentário, porém, ativo fisicamente, apresenta um menor risco de mortalidade em relação àquele que é inativo fisicamente e com alto comportamento sedentário”.

Para o professor, a pandemia aumentou o comportamento sedentário e o tempo em frente da televisão tornou esse cenário pior no contexto geral de saúde. “Quando a pessoa está sentada em frente à tela, assistindo a um programa, ela interrompe menos o comportamento sedentário e, geralmente, consome alimentos não saudáveis”, de acordo com Caldas, isso agrava o quadro de risco principalmente em idosos, que são os que mais sofrem com a mortalidade na pandemia.

O mestre em Saúde Coletiva e doutor em Educação Física, Gilmar Mercês, da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) abordou os impactos nos comportamentos de movimento entre crianças e adolescentes. De acordo com Gilmar, a suspensão das aulas presenciais devido a necessidade de distanciamento social foi um fator que contribuiu para a diminuição da atividade física entre os jovens e um consequente aumento do comportamento sedentário, principalmente em frente às telas. Segundo o pesquisador, ”verificou-se também distúrbios do sono-vigília, causado pela quebra da rotina, mas principalmente devido a exposição por períodos prolongados à telas (smartphones, tablets, computadores e televisão)”.

Para saber mais, Gilmar é apresentador do Podcast “Atividade física é coisa de criança”, destinado a professores e estudantes de Educação Física, escola e família. Nesse canal, o professor aborda os impactos da atividade física e dos comportamentos sedentários na saúde, crescimento e desenvolvimento infantil.

*Daniela Soares é jornalista e gastrônoma formada pela Universidade de Sorocaba (Uniso), graduanda em Filosofia pela Universidade Paulista (Unip).

 

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