Imunidade Coletiva na COVID-19: o que já sabemos?

*Raquel Saraiva

O número de infectados pelo coronavírus no Brasil já passa dos 4,7 milhões. Em algumas regiões, pesquisadores avaliam se a imunidade coletiva, ou imunidade de rebanho, foi alcançada. São numerosas as controvérsias em torno do assunto, desde o tempo de duração da resposta contra o vírus até a porcentagem mínima de imunizados para alcançar a imunidade de grupo. O tema foi discutido em webinário realizado pela Rede CoVida no canal do Cidacs (Fiocruz) no último dia 17.

“A questão é que esse limiar de imunidade comunitária vai aumentar quanto menor for a qualidade e a duração da resposta imune”, disse Viviane Boaventura, pesquisadora da Fiocruz. Um dos estados mais afetados pela pandemia foi o Maranhão, no qual quatro em cada dez pessoas já foram infectadas pelo vírus. Um trabalho liderado pelo pesquisador Antônio Augusto Moura da Silva, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), mostrou que a prevalência do vírus é de 40,4% no estado. “É a maior prevalência encontrada no mundo para uma área do tamanho da Itália”, destacou o pesquisador.

Uma pessoa infectada transmite o vírus, em média, para outras duas ou três pessoas que ainda não foram infectadas. No caso de um estado de imunidade de rebanho, a chance de um indivíduo com o vírus encontrar outro passível de ser infectado é menor. Assim a taxa de contaminação é reduzida. “A vacinação é a estratégia mais promissora no sentido de apoiar a imunidade comunitária”, ressaltou Viviane. Mesmo que sejam necessários reforços com outras doses, a vacinação é uma estratégia que consegue expor uma grande quantidade da população de uma vez, e assim neutralizar o vírus.

Defesa
A resposta imune tem dois ramos principais, explicou a pesquisadora. A resposta humoral, que é feita pelos anticorpos, e a resposta celular. A primeira bloqueia a entrada do vírus nas células-alvo, e a segunda destrói a célula que foi infectada, além de aumentar a produção de anticorpos. Potencialmente, a resposta celular é a melhor para avaliar se houve infecção prévia e também identificar os assintomáticos. No entanto, ainda não foram desenvolvidos testes comerciais para detectar esse tipo de resposta.

A resposta humoral é significativa nos pacientes com o novo coronavírus. Nos pacientes mais graves, ela é mais intensa e mais rápida, e mais leve e tardia em indivíduos assintomáticos ou com quadros leves. Além disso, os anticorpos não parecem durar muito, assim como ocorre com outros coronavírus: há queda significativa na produção de anticorpos a partir da 4a semana após a contaminação. “Existe a possibilidade do vírus se proliferar e transmitir a infecção mesmo que o indivíduo já tenha sido infectado anteriormente”, explicou Viviane.

Em relação à resposta celular, foi demonstrado que os pacientes que se recuperaram da infecção têm resposta vigorosa de células do sistema imunológico do tipo TCD4 e TCD8. Inclusive indivíduos que não foram infectados parecem responder ao vírus por ação destas células. Segundo a pesquisadora, isso ocorre porque, provavelmente, elas reconhecem partes do vírus provenientes de infecção cruzada. “Isso não significa que eles sejam imunes à Covid. Pode ser que haja alguma proteção, mas isso precisa de avaliação posterior”, destacou.

Além de desconhecido, o valor percentual de imunidade na população será diferente em distintos subgrupos para que a circulação do vírus seja reduzida. “Em média ele vai ser 20%, 30% ou 40%, mas terá que ser maior nos locais onde há mais transmissão e menor nos lugares onde há menos transmissão”, destacou Guilherme Werneck (UERJ/UFRJ).

Dinâmica

A transmissão do vírus de fato é heterogênea, explicou a pesquisadora Gabriela Gomes (Universidade de Strathclyde, Reino Unido). “Os indivíduos têm variações entre si e estão expostos a condições que os tornam mais ou menos suscetíveis à infecção pelo vírus”, explicou.  Ela vem avaliando a dinâmica do vírus na população com base em modelos matemáticos. Segundo suas avaliações, o distanciamento social teve “papel muito importante no embate inicial com o vírus, e hoje parece ser muito mais importante a imunidade que se vai construindo no complemento das medidas de distanciamento”.

Mesmo para o Maranhão, o pesquisador Antônio Augusto destacou que não se sabe se a imunidade de grupo foi atingida. “Estamos com uma redução muito grande do número de casos e redução do número de óbitos, mas pra essa pergunta nós não temos resposta”.

Apesar das questões em aberto, o pesquisador Maurício Barreto (Cidacs e Rede CoVida) ressaltou que esse é um tema fundamental para entender o comportamento e o combate ao vírus. “É central para avaliar a continuidade da pandemia, a ocorrência de segundas ondas, o efeito que a vacina terá no controle da contaminação… É um conceito que pode ser aplicado em diferentes momentos quando se pensa no controle da pandemia”.

Assista aqui ao webinário completo:

*Raquel Saraiva – graduanda em Comunicação Social (UFBA), bióloga e mestra em Fisiologia (UFBA), editora do site de divulgação científica Bate-papo Com Netuno. Colabora voluntariamente para a Rede CoVida.

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